José do Egito – A Trajetória de um VencedorImprimir
Personagens da Bíblia (Parte IV)

I – INTRODUÇÃO

Dentre os doze filhos varões de Jacó, um tem-se destacado, por demonstrar excelentes virtudes e por refletir uma beleza interior do coração. É a história de José, o filho mais velho de Raquel, segunda esposa e primeiro amor de Jacó.

A incrível história desse homem de fé tem ajudado homens e mulheres a confiarem plenamente no único e verdadeiro Deus. Além de dar prova de sua obediência a Deus, José demonstrou firmeza moral e boas qualidades, como gentileza, fidelidade e veracidade, durante a sua vida diária. Embora as Escrituras Sagradas nada digam a respeito da infância de José, é possível deduzir que ele tenha crescido numa tensa atmosfera familiar repleta de ciúme e ressentimento.

Mesmo diante das muitas adversidades sofridas durante a sua trajetória, ele manteve-se fiel a Deus. José aprendeu com a adversidade a ser virtuoso e sábio e era considerado pelos antigos israelitas o modelo de todos os administradores e detentores de autoridade.

José empreendeu ações e tomou decisões que levaram paz àquela atormentada e beligerante família de Israel, apesar de que tais ações e as de seus irmãos fossem inevitavelmente necessárias para o cumprimento, anos mais tarde, de uma profecia anunciada por Deus ao profeta Abraão (ver Gênesis 15:13; Êxodo 12:40; Atos 7:6) .

II - NASCIMENTO E ADOLESCÊNCIA DE UM JOVEM SONHADOR

Quando José nasceu, Jacó, seu pai, ainda trabalhava para Labão, seu sogro. Foi o primeiro filho de Raquel, a mulher a quem Jacó amava. Sua mãe lhe deu esse nome, como expressão do seu desejo de ter outro filho, desejo este realizado mais tarde, quando do nascimento de Benjamim.

Raquel, a mãe de José teve a criança depois de anos de esterilidade (Gênesis 30:22). Embora fora precedido por dez meios-irmãos, esse filho foi muito esperado. José foi saudado por sua mãe Raquel como um sinal da parte de Deus. Disse ela: “Tirou-me Deus a minha vergonha.” Gênesis 30:23. Jacó tinha 91 anos quando José nasceu.

Deus manda Jacó voltar à terra de seus pais. Atendendo as orientações de Deus, Jacó partiu de Padã-Arã com toda a sua família, para voltar à terra de Canaã (Gênesis 31:17 e 18). Durante sua viagem de retorno à Canaã, Jacó morou em Sucote e depois em Siquém (Gênesis 33:17-19). Mais tarde foi morar em Betel (Gênesis 35:1, 5 e 6). Em Betel o próprio Deus anunciou ao idoso Jacó a mudança de seu nome, que passou a ser chamado de - Israel: “aquele que luta com Deus” (Gênesis 35:10). Posteriormente, em caminho de Betel para Efrate (Belém), morreu Raquel, mãe de José, ao dar à luz Benjamim (Gênesis 35:19).

Depois do relato de seu nascimento, José é mencionado pela primeira vez quando tinha 17 anos de idade (Gênesis 37:2). Nessa ocasião o jovem José pastoreava ovelhas em companhia com os seus meios-irmãos Dã e Naftali, filhos que Jacó teve com Bila, serva de Raquel e com Gade e Aser, filhos que Jacó teve com Zilpa, serva de Léia. Sendo mais moço do que eles, José não participava da transgressão deles, mas conscienciosamente levava as más notícias a respeito deles ao seu pai. As Sagradas Escrituras relatam que José recebera carinho especial de seu entristecido pai, por ser filho da sua velhice (Gênesis 37:3). Demonstrando indisfarçável favoritismo, seu pai Jacó deu-lhe uma comprida túnica listrada que o destacava entre todos. Como resultado, José passou a ser odiado por seus irmãos.

Mais tarde, quando José contou um sonho que profetizava que seus irmãos seriam seus súditos, eles passaram a odiá-lo ainda mais. Nesse sonho, o molho de trigo de José crescia altaneiro, enquanto os dos irmãos, em submissão, o rodeavam e se curvavam em reverência ao molho dele (Gênesis 37:5-8). Um outro sonho acirrou sobremaneira a rivalidade fraterna. José sonhou que o sol, a lua e onze estrelas se inclinavam perante ele, indicando que não só seus irmãos, mas também seu pai e mãe (evidentemente não Raquel, pois esta já havia falecido, mas talvez a principal esposa viva de Israel), se curvariam diante dele. Até Jacó se constrangeu com este sonho e repreendeu-o por causa disto. Diz o relato bíblico que os irmãos de José o invejavam e seu pai guardava o caso no seu coração (Gênesis 37:11). Com certeza Jacó reconhecia a natureza profética desses sonhos. O fato de José ter contado seus sonhos não significava que ele tinha sentimentos de superioridade. Ele apenas dava a conhecer o que Deus lhe havia revelado.

Em outra oportunidade, estando Jacó em Hebrom, resolveu enviar o seu filho José para os campos em Siquém, a fim de verificar o bem-estar dos filhos e de seu rebanho. Após percorrer setenta e cinco quilômetros, José chegou a Siquém. Tendo sido informado por um homem que seus irmãos haviam partido para Dotã, não lhe restou alternativa, senão caminhar mais vinte e dois quilômetros. Quando os seus irmãos o viram aproximar-se, começaram a tramar contra ele, dizendo: “Eis que lá vem o sonhador! Vinde pois agora, matemo-lo e lancemo-lo numa das covas;... Veremos, então, o que será dos seus sonhos.” Gênesis 37:19 e 20. Apenas Rúben, o mais velho, aquele que, pela tradição, deveria ser o favorito, foi contra o plano, exigindo que não se derramasse sangue. Ele propôs que José fosse lançado vivo em uma cova vazia e ali deixado a perecer, sendo, entretanto, seu intento secreto, voltar mais tarde para livrá-lo e devolvê-lo ao pai. Quando José alcançou os irmãos e seus rebanhos, eles despiram-no da sua comprida túnica listrada e em seguida lançaram-no numa profunda cova, conforme a recomendação de Rúben.

Algum tempo depois, na ausência de Rúben, quando os outros irmãos sentaram-se para comer, avistaram uma caravana de ismaelitas (também chamados de midianitas, raça árabe descendente de Quetura- Gênesis 25:1-6) que fazia a sua tradicional rota comercial que ligava a Síria ao Egito com especiarias e outras mercadorias. Judá propôs então vender seu irmão àqueles mercadores, em vez de deixá-lo morrer na cova. De imediato, Judá reconheceu ser uma oportunidade de dupla vantagem. Vendendo José como escravo, ponderou ele, eximir-se-iam da responsabilidade pelo seu destino e eles permaneceriam limpos de seu sangue. Disse Judá: “Não seja nossa mão sobre ele; porque é nosso irmão, da mesma carne que nós.” Gênesis 37:27. Ao mesmo tempo, a venda lhes renderia 20 ciclos de prata, o preço médio de um escravo à época. Com esta proposta todos concordaram, e José foi rapidamente tirado da cova. Apesar dos rogos de José pedindo compaixão, entregaram-no às mãos dos mercadores.

Quando a caravana que levava José já ia longe rumo ao sul, Rúben voltou e recebeu a chocante notícia. Alarmado e censurando-se a si mesmo, rasgou a própria roupa em desespero e procurou os seus irmãos. Sabendo da sorte de José e da impossibilidade de recuperá-lo, Rúben foi induzido a unir-se aos demais, na tentativa de encobrir o crime, visto que vender alguém como escravo era um ato ilícito. Juntos mergulharam a capa de José no sangue fresco de um cabrito e a levaram para o pai, dizendo-lhe que haviam achado no campo. Perguntando com inocência fingida se ele as reconhecia, Jacó logo chegou à conclusão pretendida pelos filhos: “É a túnica do meu filho! Uma besta fera o devorou; certamente José foi despedaçado.” Gênesis 37:33. Jacó ficou tão pesaroso com a perda de seu filho, que se negou ser consolado (Gênesis 37:34 e 35).

III – JOSÉ NO EGITO

Os mercadores levaram José ao Egito e o venderam a Potifar, comandante da guarda real de Faraó (Gênesis 37:28, 36; 39:1). Na providência de Deus esta triste viagem rumo à escravidão foi o melhor que poderia ter acontecido a José. Apesar de José não compreender o que estava acontecendo, Deus, contudo, estava utilizando essa situação para conduzir José a um magnífico futuro, que de outra maneira não aconteceria.

No Egito José mostrou ser um diligente e fidedigno escravo, granjeando o respeito e a confiança de seu novo dono. Vendo Potifar que Deus era com José, fazendo prosperar em sua mão tudo quanto ele empreendia (Gênesis 39:3), decidiu Potifar promovê-lo a supervisor, com responsabilidade sobre todas as questões domésticas.

O jovem escravo hebreu tornara-se um homem muito bonito, o que não passou despercebido à mulher de Potifar. Ela tentou seduzi-lo várias vezes a transgredir a lei de Deus, porém, José resistia dizendo: “Como, pois, posso eu cometer este grande mal, e pecar contra Deus?” Gênesis 39:9. Certo dia, porém, aproveitando a ausência dos demais criados, a mulher de Potifar agarrou a José pela capa, dizendo: “Deita-te comigo!” Gênesis 39:12. Mas José fugiu, deixando sua capa nas mãos dela, que, mortificada e furiosa, chamou pelos criados, acusando-o falsamente de que ele tivera intenções imorais para com ela. Quando ela contou isso ao marido, estranhamente o jovem hebreu não foi de pronto executado pela alegada investida, ficando apenas encarcerado na prisão real. Tivesse Potifar acreditado na acusação feita pela esposa, indubitavelmente a punição teria sido a morte. Na prisão, José foi tratado com grande severidade pelos seus carcereiros. A respeito dele disse o salmista: “Feriram-lhe os pés com grilhões; puseram-no a ferros, até o tempo em que a sua palavra se cumpriu; a palavra de Deus o provou.” Salmos 105:18 e 19.

Por ter decidido ser fiel, não importando o que lhe viesse a acontecer, “Deus era com José, estendendo sobre ele a Sua benignidade, e dando-lhe graça aos olhos do carcereiro.” Gênesis 39:21. Na prisão Deus mais uma vez intervém. O capitão da guarda, por causa da conduta exemplar de José, deu-lhe um cargo de confiança sobre os outros presos, inclusive dois de considerável importância, lançados posteriormente na mesma prisão: o chefe dos copeiros e o chefe dos padeiros. Certo dia, quando fazia sua ronda costumeira, José notou que ambos tinham uma expressão muito preocupada. Eles disseram que haviam tido um sonho estranho e que não podiam compreender o seu significado. Depois de atribuir a interpretação a Deus, José fez saber a eles a significação: em três dias o chefe dos copeiros seria reintegrado à sua antiga posição, e daria o copo nas mãos de Faraó, como fazia antes. O diligente José pediu ao chefe dos copeiros que se lembrasse dele quando estivesse de volta à corte, pedindo ao Faraó a sua libertação. Quanto ao chefe dos padeiros, em três dias este seria condenado à morte por ordem do rei. E assim aconteceu. “No terceiro dia, que era aniversário de nascimento de Faraó, deu este um banquete a todos os seus servos; e, no meio destes reabilitou o copeiro chefe, mas ao padeiro chefe enforcou, como José lhes havia interpretado.” Gênesis 40:20-22.

De volta à sua antiga posição, o chefe dos copeiros somente veio a se lembrar de José dois anos mais tarde, quando o monarca egípcio se viu atormentado por dois sonhos estranhos. No primeiro sonho, ele viu sete vacas magras que comiam sete vacas gordas, e no segundo sonho ele viu sete espigas de trigo mirradas que comiam sete espigas granadas e belas. Nenhum sábio ou mágico do Egito fora capaz de decifrar esses sonhos, foi quando o chefe dos copeiros, de repente, lembrou-se do jovem que o confortara na prisão. Levado à presença do Faraó, José voltou a insistir que seu poder para interpretar sonhos vinha de Deus. Disse ele: “Quem sou eu! É Deus que dará ao Faraó uma resposta de paz.” Gênesis 41:16. No mesmo instante José revelou que os sonhos prediziam sete anos de abundância no Egito, seguidos de sete anos de grande escassez e que os dois sonhos tinham o mesmo significado. Disse ele a Faraó que “o fato está bem decidido da parte de Deus e Deus tem pressa em realizá-lo” Gênesis 41:32. Por isso, prosseguiu José, o Faraó deveria escolher “um homem ajuizado e sábio” para criar um programa de estocagem de grãos durante o período fértil. Faraó, que escutara atentamente tudo o que José dizia, não apenas ficou impressionado pela clara interpretação de seus sonhos, como também pelo sábio conselho que lhe dera. No mesmo instante José foi nomeado governador de todo o Egito.

O escravo liberto, agora com 30 anos de idade (Gênesis 41:46), após 13 anos de servidão, foi ritualmente adotado pela corte, recebendo um nome egípcio: Zafenate-Panéia. Também como recompensa, Faraó deu-lhe por mulher Asenate, filha de um sacerdote de Om – cidade chamada posteriormente de Heliópolis, o centro do culto ao sol. No devido tempo, os acontecimentos se passaram precisamente como José previra. Durante os primeiros sete anos, José se assegurou de que as abundantes colheitas de grãos em seu país de adoção fossem estocadas. Durante esse período, José tem desfrutado de prestígio e riqueza, bem como de felicidade pessoal. Asenate, sua mulher, deu à luz dois filhos, que receberam os nomes de Manassés e Efraim.

IV – O ENCONTRO DE JOSÉ COM SEUS IRMÃOS

De súbito, contudo, os sete anos de abundância terminaram. Começaram os sete anos de escassez. Nesse período, José, na qualidade de governador, pessoalmente supervisionou a distribuição de cereais ao povo faminto. Ele tem sido tão previdente, que havia suficiente mantimento para ser vendido aos povos de outras nações, já que “a fome se agravou por toda a terra.” Gênesis 41:57.

Longe dali, em Canaã, Jacó também começou a preocupar-se por causa da fome. A última colheita falhara e as reservas de alimento começavam a escassear. Desesperado para alimentar a família, Jacó enviou seus dez filhos mais velhos ao Egito para comprar cereais. Manteve com ele apenas Benjamim, o caçula, filho de Raquel, temeroso de que ele sofresse algum mal durante a viagem. Quando eles apareceram na corte egípcia para comprar grãos, os irmãos de José prostraram-se diante dele. Ao ver seus irmãos curvarem-se com o rosto em terra, vieram-lhe à mente os sonhos que ele tivera, e as cenas do passado surgiram vividamente diante dele. José soube logo quem eles eram, mas eles não o reconheceram. Seu nome hebreu tinha sido mudado por outro e havia pouca semelhança entre o primeiro ministro da corte egípcia e o rapaz que haviam vendido aos ismaelitas.

Fingindo não os conhecer e agindo com severidade, José deu início a uma série de testes e provações que mais parecia uma tortura psicológica, acusando-os de serem espiões, por declararem que eram dez irmãos e que haviam deixado em casa seu pai e seu irmão mais moço e que o outro irmão já não existia. José os acusou de espionagem e os meteu na prisão por três dias. No terceiro dia concordou vender-lhes os cereais, porém, para mostrar que haviam dito a verdade, impôs a condição de um deles ficar como refém e prometerem voltar com Benjamim, o irmão mais moço.

Diante deste fato, os irmãos chegaram à conclusão de que o que estava ocorrendo era castigo pelo tratamento que deram ao jovem José muitos anos atrás e começaram a dizer uns aos outros: “Na verdade, somos culpados, no tocante a nosso irmão, pois lhe vimos a angústia da alma, e não lhe acudimos; por isso nos vem esta angústia. Respondeu-lhes Rúben: Não vos disse eu: Não pequeis contra o jovem? Mas não me quisestes ouvir.” Gênesis 42:21 e 22. Ao ouvir as palavras deles, que refletiam arrependimento, José ficou muito emocionado, que teve de retirar-se da presença deles e chorar. Ao retornar, ordenou fosse Simeão amarrado perante eles e retido como refém.

Em seguida, José ordenou a seus homens que devolvessem secretamente o dinheiro a seus irmãos, colocando as moedas em seus sacos cheios de grãos. Enquanto os nove irmãos regressavam a Canaã, um deles abriu o saco de grãos e surpreendido encontrou o seu saquitel contendo todo o seu dinheiro. Ao dar a conhecer o fato aos demais, todos entraram em pânico e perplexos disseram uns aos outros: “Que é isto que Deus nos fez?” Gênesis 42:28.

De volta ao lar, o espanto e apreensão encheram o coração dos nove irmãos de José, principalmente quando descobriram que o dinheiro de todos eles tinha sido devolvido às suas respectivas sacas de grãos. Jacó, por sua vez, ficou desesperado ao saber que o governador egípcio havia lhes dito que não voltassem a buscar trigo a menos que trouxessem o irmão mais moço, Benjamim. Vez após vez Jacó recusou permitir que Benjamim fosse ao Egito; mas quando as provisões se acabaram, teve que ceder. Sabiamente mandou que desta vez levassem o dobro do dinheiro, de modo a quitar a dívida original e que levassem também em suas bagagens alguns dos mais preciosos produtos da terra como presente. Quando seus filhos estavam prontos para empreenderem a segunda viagem ao Egito, o idoso pai proferiu as seguintes palavras: “Que o Deus Todo Poderoso vos faça encontrar misericórdia junto desse homem e que Ele vos deixe trazer vosso outro irmão e Benjamim. Quanto a mim, que eu perca meus filhos, se os devo perder!” Gênesis 43:14.

No Egito eles foram bem recebidos e convidados para almoçarem na casa de José. Temerosos do que lhes poderia suceder, consultaram o mordomo de José, relatando-lhe as circunstâncias de sua nova visita ao Egito. Informaram-lhe de que eles haviam trazido o dinheiro encontrado nos sacos de grãos, como também mais dinheiro para comprar alimentos. Como resposta o mordomo de José transmitiu-lhes paz e para alívio deles, trouxe-lhes Simeão, que ficara preso como refém. Ao serem introduzidos perante José, apresentaram seus presentes e humildemente prostraram-se diante dele e depois de responderem às indagações dele a respeito do seu pai, curvaram-se novamente diante dele. José, ao ver seu irmão, Benjamim, filho de sua própria mãe, ficou tão emocionado, que se retirou da presença deles e chorou. Tendo recuperado o domínio de si, José prosseguiu com a sua intrincada trama, começando com um abundante banquete que surpreendeu os simplórios israelitas, pasmos com o tratamento de honra que lhes foi dispensado. De acordo com as leis egípcias, era vedado comer com o povo de qualquer outra nação. Os filhos de Jacó tinham, portanto, uma mesa para si, enquanto o governador, por causa de sua elevada posição, comia só, e os demais egípcios que trabalhavam para José também tinham mesas separadas. Os onze irmãos foram assentados na ordem exata segundo suas idades e Benjamim recebeu porções cinco vezes maiores do que os outros. Por este sinal de favor para com Benjamim, é provável que José fizesse isso para averiguar se os demais irmãos abrigavam algum ciúme oculto, o mesmo que para com ele foram manifestados no passado. Mas, eles não o evidenciaram.

Prosseguindo com a sua intrincada trama, José desejou prová-los mais uma vez, e, antes que eles partissem, mandou que o dinheiro dos irmãos fosse secretamente devolvido nos sacos de cereais. Desta vez, ele ordenou ao despenseiro de sua casa que escondesse sua taça de prata na bagagem de Benjamim (Gênesis 44:1 e 2). Quando amanheceu, eles partiram, porém, já na saída da cidade, os irmãos foram parados pelo mordomo do governador, que os acusou de roubarem a taça de prata, dizendo: “Por que pagastes o bem com o mal? Não é esta a taça em que bebe meu senhor, aquela que ele usa para fazer adivinhações? O que vocês fizeram é mau!” Gênesis 44:4 e 5. Esta taça que José mandara esconder como uma armadilha no saco de grãos de Benjamim, não era uma peça comum. Através dela faziam-se presságios examinando-se os padrões de líquidos na superfície dentro da taça. Naturalmente, tendo em vista que esta ação era parte de um estratagema, não há base para se crer que José usasse a taça de prata para adivinhações. Os irmãos de José tinham tamanha convicção de sua inocência que se ofereceram para servir como escravos, caso a taça fosse encontrada com eles. O mordomo, porém, disse-lhes que apenas o ladrão seria feito escravo.

Teve início a tensa busca, que começou pelo saco de cereais de Rúben, encerrando-se com o de Benjamim. Houve grande consternação entre os irmãos quando a taça foi encontrada na saca de Benjamim. Com as vestes rasgadas, retornaram à casa de José e prostraram-se em terra diante dele. José disse-lhes que todos, exceto Benjamim, estavam livres para ir embora. Judá explicou como fora penoso para o pai concordar com a ida de Benjamim e se ofereceu como escravo no lugar do irmão caçula. Disse-lhe Judá: “Como poderia eu retornar à casa de meu pai sem ter comigo o rapaz? Não quero ver o mal que se abaterá sobre meu pai.” Gênesis 44:34.

José não pôde mais conter-se. Depois de dispensar a criadagem egípcia, chorou em alta voz e identificou-se aos seus irmãos. Disse-lhes que involuntariamente todos eles vinham cumprindo os desígnios de Deus: “Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos aborreçais por me haverdes vendido para cá; porque para preservar vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Porque já houve dois anos de fome na terra, e ainda restam cinco anos em que não haverá lavoura nem sega. Deus enviou-me adiante de vós, para conservar-vos descendência na terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento. Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, que me tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa, e como governador sobre toda a terra do Egito.” Gênesis 45:5-8. O perdão de José foi genuíno, pois ele beijou a todos os seus irmãos e chorou sobre eles. A história de José e de seus irmãos chega ao fim com uma reconciliação familiar.

V – MIGRAÇÃO DE CANAÃ PARA O EGITO

Para resistir aos cinco anos restantes de fome, por ordem de Faraó, José providenciou carroças para os seus irmãos. Eles deveriam voltar a Canaã a fim de buscar Jacó, o restante da família e criados, num total de setenta pessoas, trazendo-os todos para o Egito. Faraó prometeu dar-lhes a melhor terra do Egito. Esta era uma região fértil, chamada Gósen, onde o povo hebreu fixou residência ao longo de quatrocentos e trinta anos.

Os filhos de Jacó voltaram para Canaã e anunciaram ao idoso pai as alegres novas: “José ainda vive, e é governador de toda a terra do Egito.” Gênesis 45:26. Inicialmente Jacó não quis acreditar, mas vendo os carros que José enviara, convenceu-se e na plenitude de seus 130 anos de idade, exclamou: “Basta, ainda vive meu filho José; eu irei e o verei antes que morra.” Gênesis 45:28.

Na viagem para o Egito, eles pararam em Berseba, onde o patriarca Jacó ofereceu sacrifícios a Deus. Ali Deus falou com Jacó e fez-lhe uma promessa que se tornaria central na história dos hebreus: “Eu sou Deus, o Deus de teu pai; não tenhas medo de descer ao Egito, porque lá Eu farei de ti uma grande nação. Eu descerei contigo ao Egito, Eu te farei voltar a subir; e José porá a sua mão sobre os teus olhos.” Gênesis 46:3 e 4. De acordo com as palavras proferidas por Deus, José havia de ser aquele que fecharia os olhos de Jacó quando este morresse.

Tendo recebido a informação da vinda de seu pai através seu irmão Judá, que fora enviado à frente, José mandou preparar seu carro, e subiu ao encontro de seu pai, em Gósen. O encontro foi emocionante. De acordo com o relato bíblico, José saltou do carro e apressou-se a dar as boas vindas ao pai e “lançou-se ao seu pescoço, e chorou sobre o seu pescoço longo tempo.” Gênesis 46:29. E Jacó disse a José: “Morra eu agora, já que tenho visto o teu rosto, pois que ainda vives.” Gênesis 46:30.

Em seguida, com cinco dos seus irmãos, José dirigiu-se à presença de Faraó. Devidamente orientados por José, seus irmãos identificaram-se como criadores de gado e pediram para morar na terra de Gósen. Faraó concedeu-lhes este pedido, disponibilizando a eles as melhores terras. Depois de José apresentar seu pai ao Faraó, providenciou um lugar para seu pai e irmãos e deu-lhes a melhor região do país, na terra de Ramsés, em Gósen, como o Faraó havia ordenado (Gênesis 47:11). A partir daquele momento, Jacó e toda a sua família tornaram-se dependentes de José.

Antes de morrer, Jacó adotou os dois filhos de José: Manassés e Efraim. Foi então que Jacó indicou que o direito de primogenitura seria de José, sendo Manassés e Efraim encarados como iguais aos filhos do próprio Jacó, tornando-os participantes da herança dos seus próprios filhos. Essa bênção, que tinha o poder de um testamento profético, transformou-os em patriarcas de duas tribos, das doze de Israel (Gênesis 48:5), o que, por sua vez, conferiu a José a bênção dobrada da primogenitura, um direito natural do seu irmão mais velho, Rúben.


VI – A QUESTÃO DA PRIMOGENITURA DE JOSÉ

A primogenitura era concedida geralmente ao filho mais velho. No entanto, nem sempre esse critério se consolidava. Dentre os filhos de Jacó, Rúben era o mais velho, portanto, ele devia ter recebido a bênção mais importante, por ser o filho primogênito da família. No entanto, por ter se deitado com Bila, concubina de seu pai (Gên 35:22), ele perdeu o direito de primogenitura. Ao dirigir sua bênção a Rúben, Jacó disse o seguinte: “Rúben, tu és meu primogênito, minha força e as primícias do meu vigor, preeminente em dignidade e preeminente em poder. DESCOMEDIDO COMO A ÁGUA, NÃO RETERÁS A PREEMINÊNCIA; porquanto subiste ao leito de teu pai; então o contaminaste. Sim, ele subiu à minha cama.” Gênesis 49:3 e 4. Por essa razão o direito de primogenitura lhe foi tirada (ver I Crônicas 5:1).

Após a queda moral de Rúben, um outro personagem passou a se destacar naturalmente. Diz o relato bíblico que Jacó amava mais a José do que a todos os seus filhos. Ele presenteou uma túnica real a José, que causou inveja por parte de seus irmãos (Gênesis 37:3 e 4). Tudo leva a crer que Deus o escolheu para desempenhar um papel especial, pois os sonhos de natureza profética que José teve, indicavam a sua distinção em relação aos demais membros da família (Gênesis 37:5-11). Os irmãos de José entenderam o significado daqueles sonhos e responderam-lhe com ódio: “Tu, pois, deveras reinarás sobre nós? Tu deveras terás domínio sobre nós?” Gênesis 37:8. Não desejando ser comandados por José, os irmãos venderam-no para os mercadores midianitas.

Na ausência de José, Judá passou a assumir naturalmente, sem conflito com os demais irmãos, a liderança da família. Essa liderança de Judá estendeu-se até o momento do reencontro de José com o seu pai Jacó. Em I Crônicas 5:2, confirma-se que a primogenitura foi concedida a José: “Pois Judá prevaleceu sobre seus irmãos, e dele proveio o príncipe; porém A PRIMOGENITURA FOI DE JOSÉ.” Quando houve o reencontro da família no Egito, as indicações eram muito claras. José teve a preeminência por tornar-se responsável pelo sustento de toda a família (Gênesis 47:12) e por ter assumido a obrigação de preparar o funeral do pai, honrando o desejo dele de enterrá-lo fora do Egito, no campo de Macpela, na terra de Canaã (Gênesis 47:29 e 30; 50:13).


CONCLUSÃO

Curiosamente alguns fatos que ocorreram na vida de José, também ocorreram na vida de Jesus:

1. José era amado pelo pai (Gênesis 37:3 e 4); Jesus também era amado por Seu Pai (Lucas 3:22 e Mateus 3:17).

2. José foi vendido como escravo por 20 moedas de prata (Gênesis 37:28); Jesus foi traído por 30 moedas de prata (Mateus 26:15).

3. José perdoou os irmãos que o haviam vendido como escravo (Gênesis 50:20 e 21; Jesus também perdoou os que intentaram o mal contra Ele (Lucas 23:34).

4. José tinha uma túnica (Gênesis 37:3); Jesus também tinha uma túnica (Salmos 22:18; Mateus 27:35).

5. José foi encarcerado com dois prisioneiros. (Gênesis 40:2 e 3); Jesus foi pendurado no madeiro com dois malfeitores (Lucas 23:32).

José atingiu a idade de 110 anos. Ele morreu no Egito, depois de passar noventa e três anos da sua vida longe da terra de sua parentela. O nome dele consta na galeria dos heróis da fé (ver Hebreus 11:22). Antes de morrer, José disse a seus irmãos: “Eu morro, mas Deus certamente vos visitará, e vos fará subir desta terra para a terra que jurou a Abraão, a Isaque e a Jacó.” Gênesis 50:24. Em seguida ele pediu que os irmãos dele fizessem uma promessa. Disse José: “Quando Deus vos visitar, levareis os meus ossos daqui.” Gênesis 50:25. Esta promessa cumpriu-se com Moisés, quando da saída dos israelitas do Egito (ver Êxodo 13:19).

A história de José é muito mais que um simples retrato de um homem de grande caráter e de fé admirável. É também um marco decisivo na história do povo escolhido de Deus e um modelo de conduta para todos quantos desejam sinceramente ser fiéis ao Senhor.





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