O Dízimo na Era PatriarcalImprimir
Dízimo – Uma Análise à Luz da Palavra de Deus (Parte I)
I – INTRODUÇÃO

O objetivo é esclarecer o assunto do dízimo de uma maneira sucinta, utilizando as Escrituras Sagradas como fonte de referência. Tendo em vista a relevância do tema, esta série de estudos será dividida em três partes:

Parte I - O dízimo na era patriarcal;
Parte II - O dízimo durante a vigência do sistema sacerdotal levítico;
Parte III - O dízimo no Novo Testamento.

Os relatos bíblicos serão analisados em toda a sua abrangência e cada texto será interpretado com absoluta seriedade e com total isenção. O tema é demasiadamente importante para passá-lo por alto e é fundamental que os líderes religiosos se disponham a dialogar abertamente sobre esta questão, isto porque, a indisposição por fazê-lo abre espaço para a dúvida e insegurança.
A prática de se pagar ou entregar o dízimo não se originou com os israelitas. As civilizações pagãs antigas, entre as quais, os fenícios, árabes, babilônios, cartagineses, chineses, gregos e romanos, pagavam o dízimo. Tabletes cuneiformes comprovam esta prática entre os povos da Mesopotâmia. (Veja W. von Soden, He Ancient Orient, Eerdmans, 1994, pp. 188-198. Também  A. Leo Oppenheim, Ancient Mesopotamia, University of Chicago, 1977, pp. 183-198 e W. Eichrodt, Theology of He Old Testament, SCM, 1987, Vol. I, pp. 141-177 e Harris, Archer, Waltke, Theological Wordbook of He Old Testament, Moody Press, 1980).
Muitos professos cristãos têm manifestado preocupação e preferem não se aprofundar nas investigações bíblicas sobre tão importante assunto, porém, é bom lembrar que quando os propósitos de Deus são assimilados sob a perspectiva correta, vitórias espirituais serão alcançadas.

A primeira parte desta série desvenda e focaliza alguns conceitos errôneos, ensinados em muitas instituições religiosas, baseados sobre a questão da entrega do dízimo na era patriarcal. Afinal, esse dízimo era obrigatório e sistemático? Que lições extraímos atualmente das experiências de Abrão (mais tarde chamado por Deus de Abraão) e Jacó?


II – O DÍZIMO DE ABRAÃO SOBRE OS DESPOJOS DE GUERRA

Abraão foi chamado por Deus a sair de sua terra, Ur dos caldeus, cujos habitantes eram pagãos, para ir até Canaã. Em obediência ao chamado de Deus, Abraão mudou-se para Harã, permanecendo lá até a morte de seu pai. Ao partir para a terra de Canaã, diz a Palavra de Deus que Abraão levou junto com ele a sua esposa Sara e o seu sobrinho de nome Ló, filho de seu falecido irmão, bem como todos os bens que ele havia adquirido e as pessoas que lhe foram acrescentadas em Harã (Gênesis 12:5). Devido à grande quantidade de bens que Abraão e Ló possuíam, houve contenda entre os seus pastores de gado. Os dois conversaram e pacificamente decidiram pela separação, conforme está relatado em Gênesis 13. Abraão ficou em Canaã e Ló dirigiu-se para os limites da cidade de Sodoma (Gênesis 13:12).

Tudo estava indo muito bem, até que irrompeu um conflito na região. Cinco reis resolveram rebelar-se, cansados de servir por doze anos ao rei de Elão, Quedorlaomer. Foram eles: Bera, rei de Sodoma; Birsa, rei de Gomorra; Sinabe, rei de Admá; Semeber, rei de Zeboim; Belá, rei de Zoar (vizinho ao Egito).

O rei de Elão, Quedorlaomer reagiu e convocou outros três reis para sufocarem os rebeldes. Foram eles: Anrafel, rei de Sinar (região da Babilônia); Arioque, rei de Elasar; Tidal, rei de Goim. Esta guerra é denominada pelas Escrituras Sagradas como “A guerra de quatro reis contra cinco” (Gênesis 14:1-17).

Os reis rebeldes, como não possuíam experiência de combate, foram impiedosamente derrotados e subjugados pelas forças comandadas pelo rei Quedorlaomer. Os vitoriosos saquearam as cidades da planície e todo o povo foi levado cativo, os seus bens e todo o seu mantimento. Inclusive Ló, que morava nos limites da cidade de Sodoma, foi levado preso e todos os seus bens confiscados (Gênesis 14:12).

Abraão tomou conhecimento da calamidade que sobreviera ao seu sobrinho Ló através uma pessoa que escapou da batalha. Movido por uma profunda afeição por seu sobrinho, o patriarca Abraão decidiu libertá-lo. Para isso ele convocou uma tropa de elite com trezentos e dezoito bravos guerreiros, todos criados em sua casa e devidamente preparados para o combate. Ele buscou também o apoio de três régios aliados, os irmãos Manre, Escol e Aner, governadores das planícies dos amorreus, que se uniram a ele com os seus grupos. Juntos partiram em perseguição dos invasores. A vitória foi esmagadora. Todos os cativos foram libertados e todos os bens recuperados (Gênesis 14:16).

Em seguida a Palavra de Deus registra o encontro que Abraão teve com Melquisedeque, rei de Salém. Como sacerdote do Deus Altíssimo, ele trouxe pão e vinho e pronunciou uma bênção sobre Abraão e deu graças ao Senhor que operara um tão grande livramento por meio de Seu servo. E Abraão deu-lhe o dízimo de tudo. (Gênesis 14:18-20; Hebreus 7:1 e 2)

Era costume que os despojos de guerra ficassem com os vencedores. No entanto, Abraão não empreendera esta expedição com o intuito de lucros, e recusou-se a tirar vantagens, estipulando apenas que seus aliados recebessem a parte que tinham direito. Como exemplo há o relato da insistência do rei de Sodoma para que Abraão ficasse com os bens materiais e devolvesse apenas as pessoas seqüestradas por Quedorlaomer. Abraão lhe disse:

“Levantei minha mão ao Senhor, o Deus altíssimo, o possuidor dos céus e da terra, que desde um fio até a correia, dum sapato, não tomarei cousa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: Eu enriqueci a Abraão, salvo tão somente o que os mancebos comeram, e a parte que toca aos varões que comigo foram, Aner, Escol e Manre; estes que tomem a sua parte.” Gênesis 14:22-24.

Foi exatamente isto que Abraão fez. Após descontar o custo operacional da guerra, ele devolveu aos seus legítimos donos 90% (noventa por cento) do que restou de todos os despojos recuperados e deu 10% (dez por cento) ao sacerdote Melquisedeque, baseado num costume dos povos pagãos da antiguidade..

O texto bíblico diz que Abraão deu o dízimo de tudo, não do seu patrimônio, mas unicamente dos despojos recuperados na guerra. Este entendimento está em conformidade com o que está escrito em Hebreus 7:4:

“Considerai, pois, quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu os dízimos dos despojos.”

Não há registro bíblico de que este dízimo era sistemático e obrigatório. Também não há registro da obrigatoriedade de dizimar despojos de guerra.

Apesar de Abraão não ser um exemplo de dizimista para os nossos dias, Deus não o condenou, pois “depois destas coisas veio a palavra do Senhor a Abraão numa visão, dizendo: Não temas, Abraão; Eu sou o teu escudo, o teu galardão será grandíssimo.” Gênesis 15:1.


III – O DÍZIMO DE JACÓ

Quando o assunto é dízimo, não se pode deixar de lado a história de Jacó. Jacó era filho de Isaque, neto de Abraão, herdeiro da promessa e patriarca escolhido por Deus do qual descendeu o povo de Israel.

Jacó estava indo em direção à Harã, orientado por sua mãe, por causa do furor de seu irmão Esaú. “Partiu, pois, Jacó de Beer-Seba e se foi em direção a Harã e chegou a um lugar onde passou a noite, porque o sol já se havia posto; e tomando uma das pedras do lugar e pondo-a debaixo da cabeça, deitou-se ali para dormir.” Gênesis 28:10 e 11.

Neste sonho Jacó viu uma escada alcançando o céu, com os anjos de Deus subindo e descendo por ela. No sonho, Deus estava de pé, acima da escada e disse a Jacó:

“Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão teu pai, e o Deus de Isaque; esta terra em que estás deitado, Eu a darei a ti e à tua descendência; e a tua descendência será como o pó da terra; dilatar-te-ás para o ocidente, para o oriente, para o norte e para o sul; por meio de ti e da tua descendência serão benditas todas as famílias da terra. Eis que estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra; pois não te deixarei até que haja cumprido aquilo de que te tenho falado.” Gênesis 28:13-15.

Em resposta a estas promessas de Deus, Jacó fez um voto:

“... Se Deus for comigo e me guardar nesta viagem que faço, e me der pão para comer, e vestidos para vestir; e eu em paz tornar à casa de meu pai, o Senhor será o meu Deus; e esta pedra que tenho posto por coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo.” Gênesis 28:20-22.

Sem dúvida alguma o histórico de Jacó é espetacular, portanto, ele deveria ser considerado por aqueles que defendem a teologia sistemática e obrigatória do dízimo como um dizimista exemplar. No entanto, em se tratando deste assunto, os princípios contidos na história de Jacó levam-nos a conclusões diversas:

a) Ao fazer um voto a Deus, Jacó estava provando de que ele não era dizimista. Ao ser criado no rigor da religião patriarcal, será que Jacó não aprendeu de seu avô e de seu pai esta prática, caso ela realmente existiu? Voto é propor algo novo na busca de uma melhor experiência espiritual. Como pode alguém fazer um voto de algo que já faz parte de sua rotina?

b) O dízimo de Jacó era condicional: primeiro a bênção, depois o dízimo. Importante observar que o ônus da prova estava com Deus. Se Deus não o abençoasse, ele não daria o dízimo. As instituições religiosas hoje ensinam o oposto. A bênção de Deus é condicional. Primeiro o dízimo, depois as bênçãos.

c) Há um terceiro aspecto interessante neste relato. Jacó propõe à Deus cinco condições agregadas:

1. Se Deus for comigo, e
2. Me guardar nesta viagem que faço, e
3. Me der pão para comer, e
4. Vestidos para vestir, e
5. Eu em paz tornar à casa de meu pai.

As cinco condições estão unidas pela preposição “e” (Gênesis 28:20). Se Deus atendesse apenas quatro dos cinco itens da lista de requisições, Jacó estaria automaticamente livre de cumprir o voto. Ele pediu a presença de Deus + proteção + comida + roupa + paz. Segundo o voto que Jacó fez, ele daria o dízimo se todas as condições fossem atendidas. Todas, sem exceção.

Se Jacó deu o seu dízimo, não sabemos, pois não há registro bíblico sobre isto. Apenas sabemos que todas as condições foram atendidas por Deus ao longo dos 20 (vinte) anos seguintes, culminando com o seu retorno à Canaã (Gênesis 31:38 e 33:18-20).


IV - CONCLUSÃO

O exemplo de Abraão, além de refletir apenas um fato isolado em sua vida, não nos parece ter sido de orientação divina, mas um costume da sociedade de seus dias. Em nenhum momento é mencionado e nem sequer sugerido que Abraão entregou o dízimo por força de lei. O lado positivo desta ação está no respeito e na honra que ele prestou ao rei e sacerdote Melquisedeque. Inclusive não há registro bíblico de Abraão ter transmitido este ensinamento aos seus filhos.

No caso de Jacó, a entrega do dízimo estava relacionada a um voto, efetuado em um momento de temor e dúvida. Também não houve imposição legal ou orientação divina, nem tão pouco houve orientação de seu pai Isaque e de seu avô Abraão para tal procedimento.

As experiências de Abraão e Jacó são os únicos exemplos sobre a questão do dízimo encontrados na era patriarcal, antes da lei ser dada a Moisés. Nos dois casos não há registro nas Escrituras Sagradas que ele tenha sido obrigatório e sistemático. Além de ser uma prática das civilizações pagãs da antiguidade, era também um sinal de gratidão e devoção.

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